Sepulcro Caiado: líderes evangélicos são denunciados ao DAGV por assédio sexual
![]() |
| Foto FanF1 |
“Fariseu que não enxerga! Limpa, antes de tudo, o interior do copo e do prato, para que da mesma forma, o exterior fique limpo! Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, hipócritas! Porque sois parecidos aos túmulos caiados: com bela aparência por fora, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e toda espécie de imundície!”.
Não está nas normas do Jornalismo convencional iniciar uma matéria investigativa com um trecho bíblico, porém, neste caso, a passagem faz todo sentido, principalmente com depoimentos tão fortes e que escondem uma névoa de dor, desespero e muita angústia.
Tudo teve início há 10 dias, após o pastor Maurício Romero criar um Instagram denominado “Movimento Púlpito Reformado”, um perfil que incentivava o envio de queixas e depoimentos de mulheres que já foram assediadas no ambiente evangélico. O intuito foi de construir uma espécie de dossiê e formalizar uma denúncia no Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis da Polícia Civil (DAGV).
Não deu outra e em apenas uma semana, dezenas de mulheres se encorajaram e passaram a interagir com Maurício e enviar uma enxurrada de depoimentos contra líderes religiosos das mais diversas igrejas espalhadas pelo Estado. Trata-se de relatos surpreendentes, alguns com “prints” de mensagens trocadas e até envio de vídeos de conteúdo pornográfico.
“Surgiu de uma certa inquietação que já vinha se estendendo por alguns anos, mas sempre que eu conversava com alguém, principalmente pessoas de liderança, a palavra que vinha era 'não passam de boatos, não passam de mulheres que de alguma maneira estão insatisfeitas, deram em cima de mim', dizia um. O outro falava 'insatisfeitas então, elas estão tentando retalhar, me atacar por causa disso'. Eram denúncias que não eram oficiais, aconteciam nos bastidores, nos corredores, mas que nunca foram comprovadas. Eu costumo orar, falar com Deus de madrugada, e em uma madrugada, há uns 10 dias, Deus falou muito claramente comigo para simplesmente abrir o espaço, que eu não precisaria fazer nada, era só para abrir o espaço que o resto ele faria no coração dessas mulheres e eu abri o espaço no meu instagram, meu instagram particular”, explica o pastor.
“Também fazia parte da XXXXXXXX (os "X" referem-se ao nome das igrejas), infelizmente me afastei por conta do pastor que me assediava. Eu fazia parte do Ministério de Louvor da igreja e ele chegou até a me fazer proposta para sair com ele. Por umas duas semanas me culpei, achando que eu tinha dado alguma brecha, mas não foi, porque tiveram outras mulheres com o mesmo relato. Ele chegou a pegar em meus seios e até passou a mão na minha bunda, eu fiquei em choque no momento. Iria contar à mulher dele, que também é pastora, mas não falei com medo dela ficar do lado dele e eu sofrer com isso ainda mais”, narrou uma vítima.
E outra... “Fui assediada por um pastor da XXXXXXX, casado com uma pastora maravilhosa. Ela estava grávida. Fiz parte de um evento com ele, formamos um grupo de WhatsApp e ele então começou a me ligar tarde da noite e enviar mensagens falando abertamente de desejo sexual. Avisei que falaria ao pastor regente, ele disse que de nada adiantaria, pois o mesmo não tinha moral para falar nada a ele já que pegava a mulherada toda da igreja. Ameacei ir ao DAGV mostrar as mensagens, daí ele parou. Mas, fui testemunha de várias outras irmãs que ele também assediou”.
E mais outra... “Irei relatar algo que me deixa ainda muito abalada. Sou casada, frequento a XXXXXXXXXXXX há muitos anos, confiava plenamente no pastor e relatava, em alguns momentos, como me sentia no meu casamento. Em certo dia, ano passado, eu estava passando por momento ruim no meu casamento, aí decidi procurá-lo. O mesmo, para piorar minha situação, relatou que não vivia bem com a esposa, que dormiam em camas separadas, que bebia muito para esquecer e que os filhos já sabem que ele não a ama. Então, daí por diante, começou o assédio, onde me elogiou, pegou em minhas pernas e tentou me agarrar dentro da igreja. Passou a me mandar mensagem, tipo me chamando de p**inh*, mandou fotos pornográficas, vídeos se masturbando. Enfim, tive que bloqueá-lo, pois caso meu esposo soubesse, meu casamento estaria em risco”.
Uma avalanche que ainda está em curso: “Fui vítima de suas investidas por anos. Tudo era uma desculpa para me chamar na sua sala e me assediar. Mandava fotos do órgão dele, por vezes mostrava a ejaculação. Vivia a me convidar para viajar com ele para Salvador, ou até mesmo para a casa do rio, que está mais para abatedouro”.

O pastor Maurício explica a escolha do nome do movimento, que conta com assessoria jurídica e, pela dimensão que tomou, deve ser transformado, muito em breve, em uma Organização Não Governamental (ONG).
“A reforma do púlpito, obviamente, não é uma reforma física, uma reforma estruturante, é uma reforma de caráter, uma reforma do posicionamento do indivíduo que está ali pregando a palavra de Deus e a sua vida fora daquele púlpito. Entendemos, como evangélicos, que nós precisamos dar exemplo, não porque devemos e precisamos, mas porque a bíblia, Jesus, nos conclama isso, a sermos exemplos. Não só aqueles que estão no púlpito, mas muito mais aqueles que estão no púlpito, eles têm uma responsabilidade muito grande sobre si. Eles assumiram esse chamado, eles assumiram essa posição, então eles precisam ter o esforço de ter uma vida sem acusações”, ressalta o religioso.
Sobre a quantidade de denúncias, Maurício Romero garante que foram inúmeras. Porém, 12 fazem parte, até o momento, da representação junto ao DAGV. Algunss dos companheiros dessas mulheres também se juntaram a elas para a formalização da denúncia.
“Em termos de denúncias, foram inúmeras. Hoje nós temos denúncias formais, oficiais, mulheres e casais que decidiram dar o nome, CPF, RG, endereço, fazer vídeo, e juntando provas testemunhais em forma de vídeo e provas materiais, nós temos hoje em torno de 12 denúncias. Nós temos outras inúmeras que elas estão dizendo: “pastor, vou orar, pastor, não estou pronta para enfrentar isso aí”. Então, diante disso, a gente resolveu tomar essas providências, arrolar esses nomes e dar prosseguimento. Envolve muitas igrejas? Sim, e nós não estamos aqui fazendo referência a uma denominação específica, nem fazendo referência a um pastor específico, mas as pessoas que lêem conseguem identificar alguns elementos, alguns indícios como a gente costuma chamar na polícia, né? Existe alguns indícios, dá para indiciar dentro do procedimento da criminologia, então existem alguns indícios sim, eu sei, eu não vou negar e eu não quis apagar esse indícios por que fazem parte da denúncia. Algumas disseram: “pastor, pode colocar o meu nome” e eu mesmo disse a elas “não vou colocar o seu nome para não vir sobre você uma enxurrada de acusações, como estão vindo essas acusações contra mim””, enfatiza o líder.
Mais relatos endossam a denúncia:
“Seria impossível continuar na igreja após ter recebido tantas propostas indecentes, ter recebido tantos vídeos pornográficos. Tenho todas essas conversas salvas na nuvem. É vergonhoso e muito nojento, mas infelizmente isso existiu. Quando passo pela frente da XXXXXXX não consigo enxergar aquele lugar como uma igreja. É muito triste! Mas é real!”
“Quando o questionava, ele dizia que a pastora sabia que ele se envolvia com outras mulheres, afinal ele era novo e cheio de vigor, e que a relação deles era de amizade e até dormiam em quartos separados. Tudo não passava de uma fachada, pela posição que ele ocupa. Aquele altar é imundo, Deus não está ali. Deus não habita no pecado. Existe uma disputa entre alguns pastores para ver quem pega mais 'irmãzinhas'. Não consigo mais ir em nenhuma igreja por tudo o que vivi”.
“Ele ia me aconselhar e tentava me tocar. Eu cheguei ao ponto de sair da sala dele correndo, porque ele tava querendo me agarrar a força. É horrível saber que existe pessoal desse tipo, viver um evangelho cheio de máscara”.
Por fim, o pastor que encabeça o Movimento Púlpito Reformado espera que a denúncia seja acolhida pelo DAGV e que mais mulheres se juntem ao processo, que ele afirma não ser nada pessoal contra qualquer denominação religiosa.
“Sem intervenção, vem como uma lâmina afiada cortando a carne, essa dor só passa depois de cicatrizar. Dói nas pessoas que estão ao redor, eu sei disso, dói em toda a igreja, mas a igreja precisa entender que nós deste movimento não estamos contra a Igreja, estamos a favor da igreja, exatamente o contrário. Não adianta ter um show gospel, uma atração em cima do púlpito, ter um movimento, ter um verdadeiro show business gospel e não ter vida no altar, porque é ausência de compromisso com Deus. Então do altar se estende isso à igreja, pois em uma igreja em que o altar está decaído, temos lares decaídos, temos jovens sem norte, temos vida sem orientação, porque é do altar que emana ali o poder, o poder de Deus para suas vidas, para estarem servindo a Deus, então nós não estamos contra a Igreja, estamos a favor”, diz.
E finaliza: “Não deixe a sua igreja, não abandone a sua igreja, pois quem tem que sair do púlpito é o adúltero, que quer permanecer no púlpito como um pastor, como aquele que representa a presença de Deus para os homens e leva as necessidades do homem para Deus. Que quer permanecer na sua vida dissoluta, irregrada, e isso não pode acontecer. Estamos aqui para ajudar a igreja a fazer, a formular essas denúncias e conduzir essas denúncias, que são crimes, são pecados, precisam ser perdoados. Mas são crimes, precisam ser apurados, levar isso ao DAGV para que a Igreja possa ser curada. É isso, e Deus abençoe vocês”.
Por Diego Rios
Marcadores: Em Sergipe, Notícias, Religião


0 Comentários:
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial